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COM “SE EU FOSSE VOCÊ 3”, DANIEL FILHO POLEMIZA E É OVACIONADO EM CANNES

28 de Maio de 2009

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PROMESSAS
Desde 1962, quando Anselmo Duarte trouxe na mala a Palma d’Ouro por o Pagador de Promessas, as amplas salas de cinema da Croisette não faziam retumbar em seus interiores aplausos tão sonoros destinados a um diretor brasileiro. Na última quinta-feira, quando “Se eu fosse você 3” teve a sua premiere mundial, Daniel Filho conseguiu agradar grande parte do exigente público de Cannes, desagradando apenas um pequeno grupo de convidados que deixou a sala pouco antes do meio da projeção aos gritos de “merde” e “incompréhensible”.

PANTEÃO
Tais polêmicas não são infrequentes num festival que reúne todos os anos estréias daqueles que são considerados os mestres do cinema contemporâneo; aqueles que já não tem mais exibições garantidas no circuito multiplex, mas que ainda vêem em Cannes a premiação máxima do cinema mundial. Neste ano, a lista de selecionados para a mostra competitiva incluiu tanto mestres do calibre de Francis Ford Coppola, Michel Haneke e Michael Bay quanto os provocateurs Lars Von Trier, Chan-wook Park e Daniel Filho.

DÉJÀ VU
A produção brasileira, novamente estrelada por Gloria Pires e Tony Ramos, reproduz o singelo drama das versões anteriores em que os protagonistas trocam de corpo experimentando as agruras do cotidiano do parceiro. As novas provações do casal incluem a gravidez temporã de Helena e uma esclarecedora sessão com o psicanalista do personagem masculino interpretado pelo calejado ator Global. A rigor, a raison d’être do filme é análoga a dos anteriores, construindo variações apenas periféricas.

CRIADOR
Em entrevista coletiva após a sessão, Nonato Estrela, diretor de fotografia tanto da segunda como da terceira versão fez uma defesa veemente da sua equipe: “A estética é toda orientada pelo padrão Globo de qualidade. Acho que não devemos mais temer afirmar isso com todas as letras. É o projeto mais coeso já articulado desse lado dos trópicos. É close, plano e contra-plano, mesmo. Todo código gera seus inovadores e diluidores; tenho certeza de que Daniel pertence ao primeiro time”.

LOAS
Com críticas francamente favoráveis, são altas as chances de “Se eu fosse você 3” arrematar algum prêmio do júri. O crítico americano Cuf Pudek, da publicação americana Variety chamou o filme de um “resultado que só pode ser atingido por um virtuose. Prova de que o talento triunfa mesmo com tantas limitações quanto aquelas impostas pelo código estético da teledramaturgia brasileira”. A Cahiers du Cinema, habitualmente suspeita de qualquer produto que aproxime-se de uma sensibilidade popular aclamou o filme como “um autêntico filme de gênero; um exercício bruto acerca da alteridade”.

AVAL
O establishment do Festival de Cannes se fez ouvir duas vezes. A primeira declaração veio do presidente do festival, Thierry Frémaux, que instado a se manifestar sobre uma das polêmicas do ano, não se acanhou em tomar partido: “Cannes sempre foi uma vitrine para propostas radicais de cinema. Desde Glauber não detectávamos a emergência de um realizador tão instigante. Impressiona-me sobretudo o seu projeto de anti-cinema, do peremptório e calculado calar sobre todas as questões que inquietam os seus contemporâneos”.

A segunda e auguriosa opinião partiu da presidente do júri deste ano, Isabelle Hupert. Fazendo pouco da querela,a atriz francesa disse que ”as reações aos filmes de monsieur Filho são as mesmas legadas a, por exemplo, as obras de Duchamp: “até meu filho faria isso”. Précisément !”.

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